12/03/2010

Postcards from paradise.

Escrever? A coisinha mais fácil deste mundo.
Afortunadamente, somos dotados de visão estereoscópica. Basta focá-la no teclado á nossa frente, esticar o dedo indicador da mão direita, esticar o dedo indicador da mão esquerda, preparar os polegares para martirizarem a barra de espaços (de modo que a pancada produza aquele som forte que nos faz sentir mestres da dactilografia) e… começar.
Levantar a cabeça e focar a visão estereoscópica no monitor, de vez em quando, só para ir controlando a qualidade da produção. Pronto. Está feito.

É assim que eu faço.
Mas não é assim que se faz.

Sou apologista que só se deve falar quando se tem alguma coisa de interessante para dizer. Caso contrário, permanecer mudo. Regra de boa educação com a vantagem acrescida de prevenir as figuras de urso resultantes da verborreia desenfreada.
Contrariando esta idéia, dizem os verdadeiros mestres, que se deve ter a cabeça vazia e começar a escrever sem rumo. Escrever “on-line”, a tempo real. Teclar ao ritmo das ideias e deixar a coisa fluir. Os arranjos vêm no fim.
Pois…
Aí é que ela empeça. Os arranjos.
Musicalmente falando, são das coisas que dão mais gozo fazer. Os arranjos.
Literariamente… são um perigo.
Têm o poder de adulterar completamente o sentido do texto. Se deixar-mos “fluir” a escrita demasiado tempo, quando voltamos atrás e “arranjamos”, já não nos lembramos do encadeamento do raciocínio e… engatamos tudo! Mais vale escrever tudo outra vez.

Daí que, os textos curtos, ou crónicas, sejam as produções ideais para os principiantes e para os amadores. Sendo curto, é fácil ter sempre presente a estrutura na sua globalidade. Mete-se menos a pata na poça. E os arranjos já se assemelham mais aos musicais.
Partindo para voos mais ambiciosos, um livro, por exemplo. Já não se pode falar bem bem, num autor. Aquilo é uma equipa de malta que investiga, revê, corrige, participa. Não é um fulano sozinho que dá á luz um imaculado Guerra e Paz á primeira.
Se efectivamente sozinho, demora anos a pari-lo. Com uma equipa, se calhar, meses ou até semanas.

O que é de facto importante, é o “core”. E esse, a ter algum valor, foi por ter sido parido na tal escrita aleatória a “fluir”. O porquê disto tem a ver com o despir do ser. Sejam poemas ou prosas, escrever sem destino pré determinado deixa a mente livre para deambular em todas as dimensões em todas as direcções. Ás vezes vai fundo. E revela coisas surpreendentes sobre o nosso ser. Até para nós.

A minha costela masoquista leva-me a ler com alguma regularidade alguns blogs de pornografia intelectual. Tudo muito complexo. Tudo muito premeditado. Ao pormenor. Tudo muito polidinho e correcto. Refulge de perfeição. Mas… vazio de essência. Sentimentos. Alma.
Não faço a mais pálida ideia de qual o método de escrita praticado pelos autores, calculo que o de régua e esquadro.

Eu uso uma palheta fina e distorção de válvulas.

O “Mortalhas e Lume” não tem, nem nunca teve, quaisquer pretensiosismos literários. Assim como não tem, nem nunca teve, quaisquer interacções com os seus leitores e/ou comentadores. Isto é uma via de um só sentido. Foi projectado como tal, e como tal se irá manter. Olhar para este blog ou para uma ponteira de escape, é precisamente a mesma coisa.
Em certa parte, é este autismo que permite a genuidade e sinceridade dos conteúdos. Por vezes amorfos. Por vezes chocantes. Por vezes hilariantes. Por vezes… sei lá!

Sou um “redneck” literário. Absolutamente “face value”.
Os detritos que vou despejando aqui, podem não cheirar bem, mas são genuínos. Com certificado.

Cumprem a função: Aliviam! Ó se aliviam!

Não querendo desconsiderar quem por aqui passa regularmente (ou não), isto é o mais próximo de uma interacção que eu me permito. A excepção á regra.

2 comentários:

  1. Ainda há dias tive uma grande "discussão" com um amigo meu a respeito do sistema de escrita ideal.
    Dizia ele que cada palavra tem de ser estudada, cada vírgula, cada ponto final, cada frase e mais não sei o quê. Blá blá blá, adjectivação, blá blá blá, semântica, blá blá blá isto, blá blá blá isto, blá blá blá aquilo.
    Parece que a escrita é, para muita gente um processo quase matemático, analisado ao pormenor.

    Eu não consigo... muito sinceramente.
    Tenho montes de ideias na cabeça, mas é muito, muito raro ter vontade de as escrever. Mas quando essa vontade surge, súbita e urgente, pego no lap top e escrevo um conto em duas horas... assim à maluca, de enfiada, sem pensar.
    Os "arranjos" acabam por ser sempre mínimos.

    Quem gosta gosta, quem não gosta, azarinho.
    Nunca irei ser uma estrela literária, logo o ideal é gozar o que se escreve. Tirar verdadeiro prazer nisso, senão não vale a pena.
    Eu agora perguntaria: "Não achas?", mas este blog não tem interacções com o pessoal. :p

    Too bad.

    bjs*

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  2. Tu usas uns termos muito esquisitos para te descreveres e coiso.
    olha eu para ecsrever faço-o com um ritmo alucinante que nem vejo o que escrevo. no fim olho para ver se tem alguma palavra sublinhada a vermelho (já não se usa o lápis azul, acho...) e depois esqueço. Normalmente não leio mais. Prefiro encontrar-me novamente com os meus amigos. Os ET´s.
    Mas quero aproveitar para perguntar novamente se o bicho era um bicho ou uma bicha. O gato.
    Mas não te rales em responder-me. Tásse bem!

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