Era meados de Julho de 2025. Numa manhã solarenga, ouvimos alguns ruídos suspeitos na varanda e fomos ver o que se passava. Uma das gatas de rua que habitualmente está por ali (gata que alimentamos, desparasitamos e castramos, já lá vão uns anos, mas nunca passou para dentro de casa porque o hotel está lotado, acima das capacidades), tinha caçado um pardal muito jovem e estava a divertir-se com ele. Corremos a acudir ao pardal. Resgatámos a pequena ave dos dentes e garras da gata para grande frustração da predadora. Já dentro de casa, observámos melhor o bicho e, de facto era muito jovem, minúsculo, ainda não tinha a penugem completa, não conseguia voar, estava magro, mas não estava ferido, tínhamos intervindo a tempo de evitar danos graves. Improvisámos um ninho com uma caixa e uma t-shirt enrolada para dar o mínimo de conforto ao pequeno. Mas, evidenciavam-se algumas questões pertinentes: Primeiro, não sabíamos como cuidar de uma ave, ainda por cima tão jovem. Segundo, mesmo adquirindo esse conhecimento em tempo útil, fazê-lo numa casa com gatos, iria resultar em desastre pela certa. O que fazer?
Decidimos levar a caixa com o pardal, entretanto baptizado de Apollo 19, ao quartel da GNR. Contámos a história e, após algumas respostas e comentários idiotas, do género "É só um pardal, largue-o aí fora", e, "O que é que quer que eu faça com um pardal?", lá se resignaram a chamar o colega da SEPNA (Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente), ele que nos aturasse e assumisse a responsabilidade. O soldado aceitou o pardal dizendo que o iria levar para o Centro de Recuperação de Aves Selvagens de Montejunto. Não acreditámos muito no compromisso. Ficámos a pensar que mal voltássemos costas, o pardal ia janela fora. Ou, mesmo que chegasse a Montejunto, certamente as prioridades do Centro de Recuperação seriam outras. Espécies ameaçadas ou em risco de extinção. Um insignificante pardal não ia ter a atenção de ninguém. Pouco convencidos acerca do sucesso do empreendimento, voltámos para casa a tentar racionalizar se teríamos feito tudo o que estava ao nosso alcance, se teríamos agido correctamente para ajudar aquela pequena vida a singrar.
Os meses passaram. De vez em quando lembrávamo-nos do episódio do pardal, mas genericamente evitava-se falar nisso, por suspeitarmos da nossa própria competência, com resultados incertos. Quando alguém em necessidade cai aos nossos pés, somos compelidos a ajudar. Se por algum motivo não o conseguimos fazer, fica um sabor amargo na boca, um peso na consciência. Neste caso particular, a desconfiança no empenho e bom funcionamento das instituições, também ajudou à construção do sentimento de culpa. Talvez justificado por outras experiências menos positivas no passado, mais ou menos dentro do mesmo âmbito.
Em Novembro de 2025, quase quatro meses depois do episódio do pardal, o telefone da minha mulher tocou. Chamada identificada mas proveniente de um número que não constava da lista de contactos. Apesar das insuportáveis campanhas de phishing e spam que nos massacram impiedosamente todos os dias, não fosse algo verdadeiramente importante, ela atendeu. Era.
Ao telefone apresentou-se uma bióloga do Centro de Recuperação de Aves Selvagens de Montejunto. Queria confirmar se tínhamos sido nós a enviar para lá um pardal em Julho, quatro meses antes. Respondemos que sim com alguma hesitação. Ela continuou: "Pois bem, o seu pardal já se encontra recuperado. Cresceu, já tem as penas todas. Foi difícil e demorado mas, neste momento já se encontra em condições de ser libertado na natureza. Quer vir assistir à libertação?". Claro que queremos!
No dia marcado lá fomos à serra de Montejunto. Conhecemos a instituição e uma das biólogas que lá desempenha funções. Tivemos uma conversa informal bastante agradável e tomámos conhecimento do trabalho que está a ser feito a nível nacional para a preservação da diversidade biológica. Contou-nos os comos e os porquês da importância da recuperação de um pardal, afinal não tão insignificante quanto isso. Foi das mãos da minha mulher que o pardal, agora um jovem adulto, grande e forte, voou para a liberdade. A sua nova casa é linda e espaçosa. Certamente irá enfrentar outros desafios, outros predadores, mas ali, longe do ambiente urbano, longe de gatas ociosas e do homem, abrem-se igualmente outras possibilidades. Vida longa e próspera Apollo 19.
A credibilidade nas instituições, no sistema, foi restaurada. Afinal tudo funcionou, e bem. Nestes tempos, em que nos tentam afogar com propaganda negativista, é importante registar que, são as pessoas que fazem os organismos funcionar. E ainda há pessoas competentes, dedicadas e responsáveis. Obrigado GNR - SEPNA. Obrigado CRASM.




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