Já participei em concursos de fotografia em número suficiente para poder tirar algumas conclusões.
Quando o regulamento diz explicitamente que não são admitidas fotografias editadas, as fotografias seleccionadas pelo júri são precisamente as que têm horas de Photoshop e Lightroom. Fotografias SOC (straight out of camera), nem sequer passam a fase preliminar.
Fotografias tiradas noutro país, de preferência longínquo, noutro continente, por muito banais que sejam, estão garantidas como finalistas. Fotos feitas em países com acessos condicionados, vistos incrivelmente difíceis de obter e/ou viagens e estadias caríssimas, são candidatos directos ao primeiro lugar.
Fotografias de pobrezinhos desfavorecidos andrajosos, estão garantidas como finalistas. Se forem de crianças ou idosos, estão garantidas no top 3. Os predicados anteriores, a preto e branco, garantido o primeiro lugar. O comulativo dos predicados anteriores, mas tiradas no sudeste asiático, África subsariana ou favela brasileira, asseguram uma carreira de sucesso e provavelmente edição de vários livros de "arte".
Fotografias perfeitamente banais, que podiam ter sido tiradas por uma criança de 5 anos, com um título altamente intelectual, têm potencial para vencer. E vencem.
Em concursos subordinados a temas corriqueiros do "dia a dia", as fotografias de acontecimentos excepcionais, singulares, bizarros, são as que ganham. O dia a dia de um júri que decide desta forma, deve ser digno de um filme escrito por Franz Kafka, protagonizado por Woody Allen e realizado por Werner Herzog.
Quando o regulamento do concurso exige fotografias exclusivamente do ano transacto, a serem submetidas num prazo de 30 dias, percebes que há profissionais de concursos. Conhecedores da agenda anual de concursos, vão preparando várias séries de vários temas, logo desde o dia 1 de Janeiro. Porque é humanamente impossível alguém construir séries temáticas em cenários que distam por vezes milhares de quilómetros, ou de eventos de ciclo anual ou superior, em 30 dias. E depois há a luz da época, que denuncia a preparação prévia ao longo do ano. Ou, o tratamento digital que a adultera a gosto. Mas isso é impossível porque o regulamento dizia explicitamente que não era admissível edição das imagens. Certo.
A juntar ao parágrafo anterior, é comum a exigência de fotografias inéditas. Ou seja, ou existe um património devidamente estruturado e extenso em stock, sem nunca ter sido divulgado em redes sociais, sites, blogs, port folios on-line, ou, opera-se magia em 30 dias. O que é incompatível com a actividade da fotografia. Porque um fotógrafo depende directamente da divulgação do seu trabalho, quanto mais melhor, e magia não existe. Daí concluir que o ramo de "profissional de concursos" é uma realidade.
Concursos que no regulamento admitem fotografias feitas em qualquer disposivo, incluindo telemóvel ou tablet, são invariavelmente ganhos por fotografias feitas em Leica, Hasselblad... Qualquer máquina abaixo dos 6.000€ não é digna para vencer, apenas para fazer número.
Os concursos de "tema livre" só querem dizer isso mesmo. Aplicam-se todos os parágrafos acima, mas à fotografia de uma coisa qualquer. Por vezes, até de nada. Fotografa-se uma parede branca e o resto é integralmente construído por meios digitais. Classifica-se como "abstracto", atribui-se um título etéreo, junta-se uma memória descritiva altamente complexa e intelectual e... pronto. Está ganho. Porque nenhum júri constituído por fotógrafos profissionais, especialistas em arte, iria admitir que não percebe rigorosamente nada do que ali está. Assim se transmuta lixo em arte fina.
Há curadorias de galerias e outros espaços de exibição que se pautam pelos critérios que descrevo. Conheço vários (bons) fotógrafos que optaram por não participar em concursos, não exibir o seu trabalho, nem sequer divulgar online. Fotografam para si. Nunca lhes perguntei se eram estes os motivos que os levaram a adoptar essa postura.




