Não há refeições grátis. Todas as aplicações que anunciam utilização gratuita têm uma agenda própria. Objectivamente, registar a interacção do utilizador com a aplicação para gerar perfis de comportamento e preferências. Algumas vão mais longe, todo e qualquer conteúdo original que o utilizador carrega para a aplicação, pode ser usado pela empresa detentora da aplicação para os seus próprios fins. Ou seja, ao fazer upload, o utilizador prescinde dos direitos autorais, da propriedade intelectual. Daí, determinadas aplicações, impedirem ou desencorajarem a partilha de links e favorecerem a partilha directa de conteúdos.
Nas redes sociais, se partilhar um link para uma publicação deste blog, por exemplo a publicação de uma foto, essa partilha tem uma prioridade inferior a uma partilha da mesma foto directamente nessa rede social (upload). A partilha do link vai aparecer raramente no feed dos outros utilizadores, o upload da foto é disseminado massivamente. Este "massivamente" depende directamente das estatísticas de interacção com a publicação. Quanto mais utilizadores interagirem com a publicação, a mais utilizadores ela aparece no feed.
A mecânica do sistema favorece o engagement. O novo capital é a atenção.
Lendo as letrinhas pequeninas no fundo do contrato, aquilo que ninguém lê e clica automaticamente em "concordo" só porque é anunciado "de borla", explicam o que descrevo atrás, e mais. Os dados estatísticos do meu comportamento, escolhas, preferências, e conteúdos originais carregados para a aplicação, "podem" ser usados para processos de treino e aprendizagem de Inteligência Artificial.
Não se trata apenas de direccionar publicidade, cada vez mais de acordo com os nossos hábitos e preferências de consumo. Trata-se de "educar", afinar a agilidade de uma Inteligência Artificial qualquer, cuja finalidade e utilização desconhecemos por completo. Fazer upload de fotos nas redes sociais, não ajuda só a afinar a IA que faz aqueles efeitos engraçados nas fotos, mas ajuda a treinar e afinar, por exemplo, as IA de reconhecimento facial usadas pelas forças policiais. Pior: muitos dos algoritmos que nós ingenuamente ajudámos a aperfeiçoar, têm aplicação militar. Neste campo específico, a fasquia está na interpretação de estados de espírito através de expressões faciais. Um fulano com uma expressão naturalmente zangada mas com estado emocional neutro ou relaxado, arrisca-se a ser bloqueado, detido, por a IA ter interpretado uma ameaça, um risco, na expressão do indivíduo. Quem vê caras não vê corações, não se aplica.
Isto está a acontecer agora, no momento presente. Não é teoria da conspiração.
A utilização de IA enquanto ferramenta criativa no mundo do entretenimento está efectivamente a expandir-se com tal rapidez que os dados mais recentes das plataformas de streaming são incríveis. Existe um projecto experimental, sarcástico, em que uma banda com músicos humanos plagia intencionalmente bandas de IA e submete esses plágios nas mesmas plataformas de streaming, só para ver o que acontece. O que acontece em termos de preferências dos utilizadores, o que acontece em termos de direitos autorais, o que acontece em termos de receita, o que acontece em termos legais.
Acho que atingimos o ponto onde todos nós devemos reflectir e ponderar o que queremos para o futuro. Até agora, era um gadget engraçado que se usava por piada. Até agora, era uma ferramenta que poupava tempo. A partir de agora... Trata-se de algo completamente diferente. Só será ameaça se permitirmos. E, como é de borla, estamos a permitir.




