09/07/2026

Iron Maiden, pela sexta vez em 40 anos

Em 1990 vi Iron Maiden no pavilhão Dramático de Cascais com Anthrax como banda de suporte. Foi a terceira vez que assisti a um concerto de Iron Maiden, todos naquele local. O segundo deles lá, em 1986, foi o meu primeiro grande concerto. Marco importante na vida de um fan de música, de um metaleiro.

A primeira actuação de Iron Maiden em Portugal foi em 1984, (não fui), mas até então os concertos no Dramático tinham sido de Rock Progressivo, Psicadélico, Experimental, Classic Rock/Hard Rock, Jazz, seguindo uma sequência iniciada com o festival Vilar de Mouros (1971), o único outro evento Rock internacional ocorrido no país até então. Chegava a conta gotas toda a música que os jovens ouviam, negando a música ligeira e música romântica que dominavam o mainstream, curadoria em boa parte imposta pelo poder fascista.

Em 1982 os Thin Lizzy (já em declínio) actuaram duas datas (Porto e Lisboa, não no Dramático), concertos um pouco tímidos. Em 1983 os Kiss actuaram pela primeira vez sem as pinturas faciais, no pavilhão de Cascais, também um concerto tímido com relativamente pouco público. Verdadeiramente Heavy Metal e casa cheia ou quase, Iron Maiden foram os primeiros, com toda a exuberância implícita. O nível de adrenalina era outro, a irreverência era menos conformista e mais confrontacional. Nos anos que se seguiram, aquele espaço acolheu Motorhead, Judas Priest, Slayer, Gary Moore, Def Leppard, Whitesnake, Extreme e muitos outros nomes. Portugal abria-se às tours mundiais das grandes bandas e o derrubar do muro ganhou balanço ali. O pavilhão Dramático de Cascais já não existe, foi demolido em 2005. Hospedou muitos concertos e por esse motivo conquistou a designação informal de "Catedral do Rock". Ficaram as memórias de um local elevado a mítico.

Anos mais tarde, voltei a assistir a mais dois concertos de Iron Maiden, no pavilhão Atlântico. Esta semana, por uma coincidência improvável e uma amizade longa, voltei a ver Iron Maiden com Anthrax na primeira parte, desta vez no Estádio da Luz no meio de mais 60.000 fans. Certamente muitos deles também estiveram nalgum, ou todos, daqueles concertos no Dramático, cuja capacidade não chegava às 5.000 pessoas. A julgar pelos cabelos brancos e carecas presentes, arrisco a certeza.

Ontem e hoje, tenho lido várias reportagens e artigos de opinião acerca do evento. Em Portugal, um concerto com 60.000 espectadores é algo de assinalável. Ninguém quer perder a exposição que falar sobre o tema quente do dia traz. É desta forma que detecto uma referência que se tem repetido na comunicação social genérica desde há uns anos. Sempre que um jornalista ou opinador profissional, sem vínculo ou qualquer ligação ao mundo do Heavy Metal, escreve sobre a experiência de assistir a um evento desta estética musical, sublinha o elevado espírito de camaradagem, entreajuda, respeito, valores, testemunhados no evento. Como se isso fosse absolutamente contraditório à imagem pública que os metaleiros passam. Se o preconceito da sociedade choca com a realidade, se são incompatíveis, o problema reside numa presunção, numa interpretação errónea da sociedade e não no comportamento da tribo. Como qualquer adulto esclarecido sabe, não controlamos o que terceiros pensam de nós. Muito menos devemos explicações acerca das nossas escolhas estéticas. O problema, a existir, será externo.

A comunicação social, os jornalistas e opinadores profissionais mainstream, daquela janela temporal da altura do Dramático de Cascais, deliciaram-se e facturaram à bruta com acontecimentos menos correctos e excessos praticados pelo público no antes durante e depois dos concertos. Uma boa fatia da má imagem dos metaleiros vem daí, dessas reportagens quase exclusivamente acerca de decadência, e não dos cabelos compridos, tatuagens e vestimenta preta com imagens agressivas. Em termos sociológicos, ainda não tinha passado uma década desde a revolução de Abril de 74, quando estes choques entre gerações e mentalidades ocorreram. Tanto os jornalistas e publicações não se tinham livrado do pudor dictatorial, como a tribo estava a embebedar-se de liberdade de expressão e a aprender comportamentos sociais novos. A explorar limites.

Tanto estava errado destruir carruagens de comboio, virar caixotes do lixo e partir sinalética vertical, como estava errado dar carta branca a carga policial por o pessoal estar a fumar ganzas na via pública. Estávamos todos a aprender o que é democracia, liberdade, responsabilidade cívica. Cerca de quarenta anos depois, a mesma comunicação social mainstream, constata com surpresa que a tribo aprendeu, evoluiu, tem valores, tem princípios. E cresceu.

Quem explorou mediaticamente e facturou audiências, desdenhando as consequências, a penalização social que dura há mais de quarenta anos sobre uma tribo minoritária, devia hoje ser chamado para uma entrevista. Para validar se evoluíu comparativamente. Para o bom senso permanecer surpresa em determinados círculos, calculo que não.

02/07/2026

Ratt pack

Fotografia de Rua, Série Urbana
(Batalha)


 

27/06/2026

No, not the view

Fotografia de Rua, Série Costa de Prata
(Foz do Arelho)


 

23/06/2026

Punk bubbles

Fotografia de Rua, Série Urbana
(Caldas da Rainha)


 

18/06/2026

SK8

Fotografia de Rua, Série Urbana
(Batalha)