Não são.
Uma fantasia romântica que as artes evitam desconstruir, porque serve o propósito da imagem mística e misteriosa de uma tribo dotada de poderes e capacidades, visão, inacessíveis ao comum dos mortais.
Reality check: A genialidade é fruto de trabalho. Muito trabalho. O talento, ajuda, mas tem uma contribuição rara. Surge concentrado em doses significativas, intermitente ao longo dos séculos, mas, sem trabalho árduo, significa zero.
Tal como a ciência, as artes estão sistematizadas de forma analítica e concisa. Sabe-se perfeitamente o que se tem de fazer para produzir excelência. Rudolf Nureyev não saltou da cama uma bela manhã a dançar assim. Tão pouco se afincou a treinar sozinho por iniciativa própria, sem orientação, professores, tutores, escola e, atingiu aquele ponto de excelência exclusivamente graças ao "jeito para". Mesmo nas artes populares, não clássicas, como por exemplo a música Rock, ninguém exclusivamente autodidacta, sem formação, estudo, treino sistemático, chega à genialidade alimentado exclusivamente a talento. Muitos iniciam a carreira dessa forma sim, mas em algum ponto no tempo atingem o seu tecto, os seus próprios limites, ultrapassáveis apenas através de formação. Escola. No caso das vozes, muitos exemplos ocorreram em que, o próprio instrumento ficou irremediavelmente danificado por uso incorrecto. Falta de formação.
Talvez remanescente de épocas passadas ou importada das performativas de rua, o trabalho é ocultado nas sombras, a genialidade é publicamente enaltecida. Ajuda à mística.
Também ocorreram, e ocorrem, vários exemplos em que, o génio só o é, porque o génio acredita piamente na sua genialidade. Talento natural que brotou inexplicavelmente numa realidade vernacular. Nesses casos, o despertar é doloroso.
Foi precisamente necessário chegar à escola para ouvir alguém (um professor) referir-se à minha fotografia como "fotografia vernacular". Passado o impacto inicial da tomada de conhecimento, fiquei inchado por afinal existir um género para aquilo que eu ingenuamente fazia e, até hoje, permaneço perfeitamente leal a fazer fotografia sem guião e sem storyboard. A única coisa que mudou, foi passar a saber os comos e porquês de quem só pega na câmera depois de um planeamento exaustivo, de contextos justificados ao pormenor, de operacionalização a nível industrial. Equipas de dezenas de elementos, meios técnicos, logística, modelos, até ao clic do fotógrafo. Aprecio o trabalho de alguns, o trabalho de outros tantos, não. Apeguei-me ao valor que considero acima da perfeição técnica ou tema impactante cuidadosamente escolhido: A realidade. O que está a acontecer aqui e agora, sem planeamento ou ensaio. O testemunho documental, seja do singular seja do banal. Para o imaginário do mortal comum que só vê o resultado final, o fotógrafo, é alguém com barba por fazer, olheiras cavadas, enlameado até ao pescoço, com a máquina e objectiva envoltos em camuflado militar, que se expõe às intempéries, aos predadores, e aos rebeldes que o perseguem com jipes e armas automáticas.
Óptimo.

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