Algumas vezes, demasiadas vezes, enfrentei uma situação para a qual não tive resposta, saída, solução. Gostava de poder dizer que aprendi com a experiencia. Gostava de poder dizer que da próxima vez já saberia lidar com o assunto. Mas não.
Já conhecedor dos trâmites do processo, suspiro para mim mesmo e penso: Cá vou eu outra vez. Deixo o pânico paralisar o corpo e embotar o cérebro. Quem fica a comandar a máquina é apenas o coração. Que bate furiosamente, a querer saltar pela boca. Não posso culpar ninguém pelo buraco negro onde me afundo. Afinal a culpa é minha e só minha. Não posso apontar o dedo a nada nem a ninguém, sou macho branco e adulto. Que mais vantagens necessito eu? Que culpa terão os outros das minhas inaptidões? Se estou num buraco sufocante, fui eu que me atirei para lá.
Do ponto de vista psiquiátrico, a origem de tal inépcia é relativamente fácil de identificar. Ultrapassá-la é outra história.
Sinto-me perfeitamente feliz com pouco, materialmente falando. Sentimentalmente, quero tudo. Dou tudo, exijo tudo. Quando percebo que sou apenas eu a funcionar assim, derrapo e estampo-me. Fico a sentir-me desiludido, traído até. Afinal a entrega não era total. Para as minhas relações, ambiciono a cumplicidade que imagino os gémeos terem.
Lá está. A fasquia. Coloco-a demasiado alto. Se me desiludo, não posso culpar ninguém que não seja eu.
Afundo-me em depressão e apatia.
Já vi a vida afunilar a 200km/h contra um camião. E reagi calma e racionalmente.
Já vi o meu sangue a correr por uma sanita. E reagi calma e racionalmente.
Já me vi sem dinheiro para pagar a renda da casa. E reagi calma e racionalmente.
Já fui traído pelas pessoas em quem mais confiava e amava. E reagi calma e racionalmente.
Porque estou em paz com o meu deus.
(A letra minúscula é intencional. O meu deus não é feito de superioridade).
Já traí para aliviar a dor da desilusão.
Já entrei em processos de auto destruição para anestesiar a dor da desilusão.
Já me ostracizei a tentar fugir da dor da desilusão.
Apesar das cicatrizes, continuo sem conseguir deixar de ser assim. Este jumento é incapaz de aprender, crescer e seguir o seu caminho como o macho branco e adulto que é.
Estou eternamente em guerra comigo mesmo. Cachopo, infantil.
Uma relação é um “work in progress” permanente. Ambas as partes têm que, acima de tudo, querer. Ambas as partes têm de trabalhar activamente para a desenvolver e solidificar. Não se pode descurar nada. Nada pode ser tomado como garantido. Os agentes erosivos são ferozes e desleais. Têm muitas armas letais ao seu dispor. E não se inibem de as usar por dá cá aquela palha.
Familiares com chantagens emocionais, manipulações aberrantes e condicionamentos egoístas, próprios de quem se julga o centro do universo e sente o seu protagonismo ameaçado. O peso das responsabilidades crescentes, inerentes á passagem do tempo. O apelo á futilidade dos centros comerciais repletos de montras resplandecentes com coisas novas. Sons, cores, luzinhas, movimento, glamour. O tédio instalado pela rotina. As hormonas aos saltos no fluxo sanguíneo de oportunistas mais jovens (ou não) vulgo abutres. São apenas alguns exemplos do arsenal.
Não pode ser apenas uma das partes a combater isto e todo o resto. Havendo efectivamente uma relação honesta e sincera, não devia bastar uma palavra de alerta do(a) companheiro(a)? E quando essa palavra de alerta se converte em discussão de abanar a barraca, tendo eventualmente como consequência o envio do(a) companheiro(a) em busca de conforto noutras paragens?
Eu não o faço. Enfrento o problema de frente. Posso não estar á altura de providenciar uma resposta, mas não fujo.
Quero continuar em paz com o meu deus. Essa paz permitiu-me reagir com calma e racionalidade a cenários bem mais negros que o buraco deprimente e sufocante da desilusão.
22/02/2010
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Deixa lá, não és o único a olhar o céu, como diz a canção.
ResponderEliminarPosso juntar-me ao grupo?
ResponderEliminarIsso acontece com toda a gente, n se preocupe.
ResponderEliminarTem um desafio no meu blog.
Sayōnara,
Bebo as tuas palavras como se fossem ecos da minha alma.
ResponderEliminarAdorei... apesar dos gritos de revolta que bem conheço.
Nunca pares de escrever. Liberta!
Estou estarrecida, que texto...
ResponderEliminarUm Beijo
É raro um texto intimista não me aborrecer de morte.
ResponderEliminarEstá muito bem escrito... é bom poder ordenar assim os sentimentos.
Conselhos, não te posso dar... quem sou eu, afinal?
Acho que todos nós temos problemas nessa linha, a questão é que a maioria de nós não o sabe. ;)
bjs*