06/02/2010

Got the time.

A olhar fixamente para os ponteiros de um relógio, o tempo arrasta-se, dilata. Chega a ser exasperante vê-lo passar. Mesmo que não seja tempo de espera. A pior qualidade de tempo que existe.
A olhar fixamente para uma vela a arder, o mesmo tempo, já é outro. De divagação. Introspecção. Sonho. Imaginação. No entanto… tecnicamente, o mesmo tempo.

Embalada pelo efeito hipnótico do fogo, a mente não vê o fenómeno da transformação de matéria em energia. Vê uma chama bamboleante. E divaga. Perde a noção… do tempo. Horas, dias, semanas, séculos. Universos inteiros que nascem vivem e morrem na luz dançante de uma chama. Versus o tédio vazio e implacável de qualquer dispositivo especificamente concebido para quantificar precisamente o mesmo tempo.

Podia viver várias vidas, experimentar várias existências, numa chama. Era incapaz de articular uma frase com sentido a olhar para um relógio. A não ser que “meia-noite e trinta e quatro”, seja uma frase com sentido e não apenas um valor numérico absoluto exibido num mostrador.
Recuso que o seja.

Os cabelos brancos, as rugas, testemunham a passagem do tempo pelo indivíduo. Não há qualquer indício físico exterior que revele a passagem do indivíduo pelo tempo. A experiência adquirida nos caminhos percorridos de uma chama é incógnita ao observador.

A reverência devida aos indivíduos por quem o tempo longamente passou, fica aquém do reconhecimento devido ao tempo por onde longamente passaram.

Por vezes fico a pensar se o passar do tempo será interpretado por todos da mesma forma. Para alguns, será apenas velhice. Para outros, uma biblioteca inteira de conhecimento.
E ainda há os que não têm tempo para pensar nisso.


Para:
http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/
Com os melhores cumprimentos.

6 comentários:

  1. :)
    Gostei. Sou daquelas que vão a já mais de meio da vida e penso que ela me deve muitas dessas reverências de que falas. E não. Não sou modesta.

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  2. Para mim a velhice é conhecimento, é essa biblioteca de que fala. Para mim o tempo pode passar, mas a marca fica, em pequenas coisas, seja no que fôr, até no coração de alguém, senão para que se viveu? Adorei esta crónica.

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  3. A verdade é que pode ser uma coisa e outra ou apenas uma das duas. Só em chegando lá...

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  4. Reside sempre uma biblioteca de conhecimento pena é que muitos não vejam isso mas que há há. Nem que não a consiga já transmitir.

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  5. O problema é que as prateleiras só ficam cheias até cima, muito tarde. ;)

    bjo*

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  6. "O homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos."
    (John Barrymore)

    Não deixes de sonhar... que os lamentos que vagueiam pelos nossos dias sejam apenas prantos de angústia de quem não desiste de sonhar.

    Eu nunca desistirei! Lutei para nascer e lutarei sempre para viver!

    Um obrigada pelas tuas palavras que matam a minha eterna sede de conhecimento.

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