16/01/2010

Twenty ten, are you ready for me? The future is NOW!

Até hoje, nunca conheci ninguém que não gostasse de animais. Toda a gente, mesmo que nunca tenham tido um, afirma categoricamente que são lindos, adoráveis e fofinhos. Só não têm, porque as condições da infra-estrutura habitacional ou estilo de vida, não o permitem. Caso contrário, viveriam num autêntico zoo. Tal é o amor á bicharada.

Os palhaços que afirmam este género de barbaridades, ou seja, toda a gente, parecem ignorar que é impossível “ter” um animal. Um ser vivo não é propriedade de ninguém. Nem o cacto esquecido em cima do frigorífico, atrás da embalagem de corn flakes é propriedade de alguém. A vida não se compra nem se vende. Nós, os animais humanos, declarámos esse mesmo princípio em relação a nós próprios. Não o respeitamos. Mas declarámo-lo.

Por isso, pelo menos, estamos cientes do conceito.

É um dos argumentos, ou desculpa, para nos considerarmos evoluídos.

Trocamos os pontos acumulados no telemóvel por donativos a uma organização humanitária, contribuímos com uns enlatados para o banco alimentar, compramos o Borda D’água todos os anos “só para ajudar”, damos umas moedas para a Cáritas, outras moedas para uma qualquer instituição de ajuda a toxicodependentes, uns brinquedos usados para África, uns livros escolares também usados e também para África, emocionamo-nos com as desgraças do mundo, vertemos lágrimas por um filme da Disney.
Somos deveras sensíveis e humanos.

Mas o gato vai com o caralho porque arranha o sofá e os cortinados, o cão a mesma coisa porque não dá para ir de férias com ele… E ladra, o sacana! Onde é que eu estou para aturar isto? Um gato que arranha e um cão que ladra? Há limites, hã? Irra!
Ou porque simplesmente deixaram de ser fofinhos como quando eram pequeninos.

Fora! Sem remorsos.

Claro que um gato ou um cão, mesmo que amaricado pela convivência no meio humano, se “safa” na rua. Não é a sobrevivência que está em causa. Os laços criados entre eles e nós, sim. Que raio de espécie nos tornámos, ou sempre fomos, que inicia uma relação com outro ser vivo e a seguir se descarta dela, unilateralmente, como se nada significasse?

Ghandi disse qualquer coisa do género: “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como os seus animais são tratados”.

Eu sou mais radical e imponderado: Uma vida humana não vale mais que qualquer outra manifestação de vida.

Tornámo-nos, ou sempre fomos, a espécie que considera as suas próprias crias, um acessório de moda, nos países desenvolvidos. Ferramenta de trabalho, nos países em vias de desenvolvimento. “Bem comercializável”, no terceiro mundo. Se as “nossas” crianças são o futuro, nós, somos o futuro da geração anterior. Isto quer dizer o quê?

- Ó paizinho! Só faço merda porque tu não me ensinaste a fazer melhor!

Há lixo perpetuado sem justificação. Ou desculpa.

A todos os palhaços que “têm” animais para fins meramente decorativos ou exibicionistas. Que “têm” filhos apenas para se sentirem integrados socialmente. Para mostrar a ultima colecção da Benetton. Para exibirem os carrinhos de bebé tão sofisticados que por vezes são mais caros que o meu carro. Em suma: para afirmarem o seu estatuto social.
Façam um favor ao futuro: cortem os pulsos com uma colher de pau.

Mesmo que o futuro reaja com indiferença, os animais e as crianças agradecem.

3 comentários:

  1. Excelente crítica social... :p (como sempre)

    Eu tenho um cão de marca, mas os filhos são de linha branca. =D

    ResponderEliminar
  2. Anónimo16/1/10

    Concordo plenamente.
    It's not about me, mas já sabes, sou gaja, tenho que olhar mais uma vez para o meu umbigo e falar da minha experiência:
    Sinto-me humana, apesar de não me comover nem um bocadinho com a fome e a miséria humana que muitas vezes se vê na televisão. Não me comovo, não consigo. Penso sempre: azar.
    Nunca dou esmolas, nunca ajudo instituições, enfim, não sou nada solidária. Aliás, os pobres irritam-me. Nunca sequer pensei muito sobre isso (estou a pensar agora).
    No entanto, não me ponham um animal a sofrer à minha frente. Seja psicológica ou fisicamente, seja doméstico ou selvagem.
    E já cometi uns pecados em relação a animais que só conto se me pedires com jeitinho.
    Vá, agora chama-me hipócrita. Tás à vontade.

    ResponderEliminar