Aqui á uns anos li um artigo de opinião escrito por não sei quem. Defendia que apenas os cidadãos com conhecimentos comprovados sobre politica deveriam poder votar.
A linha de raciocínio era simples:
A democracia rege-se pela vontade da maioria, expressa pelo voto. Em Portugal (e noutros países) a maioria votante é constituída por barrões, saloios, incultos e incivilizados, sem qualquer capacidade ou interesse, para avaliar as propostas politicas levadas a eleição.
A populaça tem o cérebro de tal forma embotado que é facilmente manipulável pelas campanhas, demagogias e retóricas emanadas pelos interesses partidários. Desta forma, eles, os inteligentes, cultos e esclarecidos, acabam por ficar á mercê das opções totalmente erradas do povo, encharcado em futebol, novelas e reality shows. Nada sábio.
Por isso, apenas os indivíduos com determinado nível intelectual e conhecimento político, deveriam poder votar. Assim ficava resolvido o problema da corrupção e incompetência que tem pautado os sucessivos governos.
No fim de ler aquela aberração, fiquei um bom bocado atónito.
Quando finalmente o meu cérebro reatou a marcha, pus-me a imaginar o que seria se, apenas e só, os mecânicos, pudessem opinar sobre automóveis. Se apenas e só, os cozinheiros, pudessem opinar sobre comida. Os músicos sobre musica, os arquitectos sobre casas… e por aí fora.
Sendo eu um labrego sem estudos, teria que deixar de fazer música por não ter frequentado o Conservatório.
Deixar de desenhar por não ter frequentado Belas Artes.
Deixar de escrever por não ter frequentado... Deixando de escrever deixo de criticar… Começo a perceber o ponto dele.
As pessoas, o povo, formam opiniões mesmo que não as expressem.
Em ditadura porque não podem. Em liberdade porque não querem.
Quando podem e querem, são rotulados de pseudo intelectuais. E mandam-nos calar.
Nas minhas sessões de zapping no blogocubo, encontrei por diversas vezes esta mesma opinião expressa noutras tonalidades. É habitualmente usada a expressão “pseudo intelectual” como arma de arremesso entre blogueiros. Apesar do contexto fútil e frívolo, a ideologia é a mesma.
Deixar o leme para quem está habilitado a tal e amordaçar os restantes.
Estão ali apenas para remar. Opinar sobre o rumo, não, não, não.
O vulgar: “És pago para fazer, não és pago para pensar.” Disseminado pelo tecido empresarial. Mais uma tonalidade diferente da mesma escala.
Sem ser historiador, sociólogo, antropólogo, militar ou político, do fundo da minha labreguice, parece-me que é com este tipo de material que é constituída a massa critica para uma revolução. Ou guerra.
Sempre que a superioridade, megalomania, ocuparam lugares chave, resultaram alguns milhões de mortos. A grande maioria deles, labregos. Para os inteligentes e esclarecidos ao leme, o destino foi outro.
Mas o que é que isso interessa se o registo histórico é escrito exclusivamente pelos habilitados a tal? Os vencedores?!
09/11/2009
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