02/11/2009

Antonio Sergio, I salute you.

Desde muito cedo a música foi uma constante na minha lista de interesses. O bichinho começou a despertar com a primeira bateria feita de baldes e embalagens de detergente para a roupa com a qual torturei entusiasticamente os vizinhos. Quando cheguei á adolescência, as minhas preferências musicais encaminharam-me direitinho para a voz do Antonio Sérgio. Ouvia assiduamente o “Som da Frente” e o “Lança-Chamas” qual acólito em êxtase religioso.
Troquei a bateria artesanal por coisas com mais decibéis. Os vizinhos passaram a ser torturados com mais requinte.
Fui beber avidamente á corrente de cultura e contra cultura que Antonio Sérgio divulgava pelo éter. Num cenário de estagnação monopolizada, não muito diferente do de hoje, Ele foi a voz da diferença. A única. Deu a conhecer todo um universo de sons e ritmos pouco obedientes á norma. Remou exemplarmente contra a maré pelo direito á diferença.

A explosão de "rádios pirata" em meados da década de 80, veio então dar meios a uma série de outras vozes. Nenhuma dessas vozes pode negar a origem da faísca. A música para as minorias passou a ter mais espaço, passou a estar presente em mais sítios. O produto nacional foi o que mais beneficiou desta mudança de ventos. As bandas brotavam como cogumelos. Havia concertos com uma frequência nunca vista. Surgiram Fanzines. Surgiram movimentos mais ou menos organizados. Fizeram-se excursões a concertos fora do país. Trocavam-se Demo-Tapes de bandas de garagem pelo correio. Surgiram estúdios. Gravaram-se discos. A cultura, sub-cultura e contra-cultura efectivamente existiram.

Vivi esses tempos. Sou testemunha de todo um movimento sócio cultural fertilizado pela voz grave de Antonio Sérgio. Só estive na presença física dele uma vez, no Rock Rendez Vous, se a memória não me falha.
Desde aí, fui locutor de rádio, toquei em bandas, organizei concertos, colaborei em fanzines, fiz amigos, fiz inimigos. Vivi uma época memorável. Olhando para trás, pergunto: E se nunca tivesse existido Antonio Sérgio?

Tristeza e vazio. Foi-se um lutador, uma fonte de inspiração. Das suas qualidades e virtudes como ser humano falarão outros. Sou inepto para o homenagear condignamente.
Pretendo apenas deixar um agradecimento póstumo pela óptima influência.

3 comentários:

  1. Este dia chega a todos!
    RIP!

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  2. Concordo contigo. Sem dúvida o universo musical português ficou mais pobre, resta saber aproveitar os ensinamentos de quem dedicou a vida a servir os outros.

    Até sempre, mestre.

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  3. Anónimo3/11/09

    Old school...
    Sou de outra geração. Do António Sérgio só ouvia mesmo um programa na antena 3, acho que se chamava a hora do lobo.

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