29/08/2009

Jesus without the suffering

Uma coisa que me fascina (Não. Não é uma ceninha brilhante em movimento no meu campo de visão. É apenas uma maneira tão boa como qualquer outra de iniciar mais uma libertação de lastro. E tem que ser rápida porque dentro de pouco tempo a enfermeira vai levar-me de volta á sala acolchoada) é a busca obsessiva do porquê.

Porquê? Porque é que aconteceu? Porque é que não aconteceu? Porque é que aconteceu desta maneira? Porque não de outra? E porque é que eu estou preocupado com isso? Porquê? Por mais macabro ou trágico o acontecimento, a primeiríssima coisa que vem ao de cima é o “Porquê?”. Logo a seguir vem o “Quem se responsabiliza?”
A segunda desconfio que seja autóctone. Fica para outra ocasião.

Porquê?

Somos curiosos por natureza. Os gatos também. Ansiamos por estrutura e lógica. As abelhas e as formigas também. As anteriores em conjunto, somadas á capacidade humana em lidar com conceitos abstractos?
E uns pozinhos de ciência a serio?

Bom. Se a evolução tornou os gatos em exímios caçadores curiosos. Nós ganhamos o prémio dos agarrados ao porquê. Quais eternos negadores do aleatório e da coincidência.

Acho que a necessidade em obter um porquê satisfatório para cada adversidade, vem da ideia preconcebida de estarmos destinados a algo grandioso. Todos nós temos essa sensação debaixo da pele. Somos especiais. Aguardamos a vida toda pelo dia em que executaremos grandes feitos. Na realidade, partilhamos todos a sensação de predestinação. E quando algum evento nos desvia, aparentemente, do caminho para a concretização do destino brilhante e perfeito. Estrebuchamos e perguntamos porquê. E depois torna-se um hábito. Banaliza-se. É aplicado a tudo.

Encontrado o “Porquê”, descoberto um motivo, uma razão, uma motivação, tudo passa a fazer sentido.
Correcção. Descoberto o motivo, uma razão que nos satisfaça, fechamos o círculo e damos o assunto por encerrado. Com ênfase na satisfação da necessidade, o caminho para o porquê passa a ter contornos mais catárticos. Laxante psicológico. Ou será que o trauma induz um retrocesso á idade dos porquês?

Não buscamos um porquê qualquer. O porquê científico, por exemplo, é superficial de mais. Queremos um porquê devidamente personalizado. Devidamente adequado ás nossas necessidades, capaz de levar a bom porto a catarse pessoal.

Causa, evento, consequência, porquê. Existe uma necessidade absoluta de encontrar, clarificar, absorver o porquê das coisas. Todas as coisas. E há muitas coisas. Mesmo muitas. Tipo, bué.

Assim de repente, consigo pensar em dois porquês que me incomodam:

- Porque é que nos frascos de pickles vem sempre, um e apenas um, quadradinho de pimento? Sempre no topo? Porquê?

- Porque é que nenhum carro tem espaço suficiente para uma cabeça humana entre o volante e a barriga do condutor? Porquê?

Arizona, 1882. Um cowboy empoeirado, com um ombro a sangrar, resultante da refrega com os bandidos, segura o cadáver ensanguentado ainda quente da sua amada. Pano de fundo, o pôr de sol no deserto. Ouve-se baixinho o lamento de um violino. Lavado em lágrimas o cowboy ergue a cabeça e brada aos céus com voz rouca: “Porquê?”

Porque sim. Que raio!

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