Já não presto atenção ao que se faz em Portugal em termos literários há muito tempo. Décadas mesmo. Esta antipatia, se assim se pode chamar, adquiri-a ainda jovem (e inconsciente), apenas por um único motivo, que passo a explicar.
Praticamente qualquer autor português, de qualquer época, de qualquer facção estética, parece ter como objectivo primordial, mostrar a quem lê, a sua superioridade intelectual e sofisticação mundana. Independentemente do tema que é abordado ou estilo narrativo escolhido, parecem acima de tudo pretender que o leitor ao chegar ao fim da obra fique a pensar: “Este gajo é muita culto e escreve muita bem!”. Ao invés de suscitar questões e raciocínios paralelos, ou perpendiculares, obrigar o leitor a pensar, imaginar, questionar, não. Isso fica para segundo plano. O principal é vender a sua própria imagem de erudito e exímio escritor. Com especial relevância para os malabarismos técnicos no domínio da língua nativa.
Faço parte daquela esmagadora maioria de portugueses que só lê nas férias. E coisa que não faço, de certezinha absoluta, é andar com um dicionário e uma gramática atrelados para decifrar o Português correctíssimo, mas tortuoso, usado e abusado por estes conterrâneos.
Recentemente peguei em dois livros “Made in Portugal”. A postura continua rigorosamente a mesma.
É o que habitualmente refiro como “música para músicos”. Entretidos em contendas intelectuais e tecnicismos linguísticos de ponta, não coçam onde é preciso. Ou se coçam, coçam com uma daquelas mãozinhas de prata maciça com cabo longo de marfim cravejado de pedras preciosas.
E assim andam as mentes brilhantes cá do burgo. A prestar um inestimável serviço á cultura que os pariu.
A falência do capitalismo urge a ser discutida, mesmo com calinadas á mistura. A sobrevivência sustentada. A cada vez maior omnipresença do Big Brother tem de ser questionada com caralhadas pelo meio. Temas não faltam. Infelizmente os indígenas mais aptos e credenciados para tal, continuam demasiado concentrados no seu próprio umbigo. É uma pena.
Se calhar é uma questão de tradição.
Se eu lesse jornais, visse televisão ou acompanhasse determinados blogues, já estaria a par do status quo. Desta forma, tive de pagar para ver. Com a minha curiosidade contribui para o abate de mais não sei quantas árvores e subsequente poluição do meio ambiente. Como acho que aí já passámos largamente o ponto de não retorno… que se lixe.
Sim, os livros continuam caros como o raio. Definitivamente destinam-se á elite com capacidade de os adquirir. Compreender, é um assunto totalmente distinto.
E cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas.
01/07/2009
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