Sou de opinião que antes de julgar gratuitamente devemos, primeiro que tudo, questionar a nossa própria habilidade de percepção.
A interacção foi assim tão duradoura e profunda que permitisse construir uma imagem verdadeiramente global e fidedigna do indivíduo?
A faceta obscenamente chocante foi adquirida recentemente, ou sempre lá esteve? Se é “factory installed” foi intencionalmente camuflada pelo indivíduo? Ou deliberadamente ignorada por nós?
De facto os relacionamentos não são simples. A tão apregoada tolerância torna-se difícil de colocar em pratica quando implica alguém com a proximidade suficiente para abalar as nossas convicções mais profundas. E entre questionar as tais convicções profundas ou acusar, julgar e condenar quem causou o distúrbio, quase invariavelmente, optamos por matar o mensageiro.
Eu estou bem, não fiz nada de errado. O outro é que é um merdas.
Recusamos categoricamente escrutinar o nosso âmago de certezas.
Quantas vezes apanhei no ar frases do género:
“Quando estava comigo, não era nada assim!”
“A culpa foi do(a)…”
“Mudou muito, já não é a pessoa que era.”
“Ele(a) é um(a), {inserir adjectivo pejorativo}
De uma forma quase pueril, deixamos de fora o facto das relações serem bidirecionais.
Somos influenciados e simultaneamente influenciamos.
E o nosso papel de agente influenciador? Não conta? Se é um merdas, até que ponto não fui eu que contribui para a emergência ou potenciamento dessa faceta?
Nas interacções ou relações, como preferirem, encontramos pessoas capazes de trazer ao de cima o que há de melhor em nós. Assim como também encontramos pessoas capazes de trazer ao de cima o que há de pior em nós.
Mesmo, mas mesmo mau, é nem sequer interagir, ilibando a responsabilidade da influência, mas mesmo assim, julgar e condenar do cimo da soberba e omnipotente certeza, reduzindo a habilidade de percepção à mera observação de consequências e resultados. È como afirmar categoricamente que houve uma trovoada, apenas pela observação de uma singular poça de água no chão.
Uma das muitas leis de Murphy diz que um problema deliberadamente ignorado tende a agravar-se na direcção do maior estrago possível.
Após o qual restam apenas cacos e lamentações.
Grave é tratar-se de pessoas. De vidas. E de danos muitas vezes irreversíveis.
A isto eu chamo irresponsabilidade. E quero saber quem se responsabiliza.

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