Um hábito perdido para a modernidade foi o de ouvir música.
Quero dizer, ouvir música apenas. Ouve-se muita música no carro, ouve-se muita música sentado ao PC a trabalhar, a jogar Solitaire, na conversa no MSN. Ouve-se muita música enquanto se dá a “volta” da limpeza em casa, ouve-se muita música no leitor MP3 ou no telemóvel. Mas sentar, pôr um disco a tocar e apenas ouvir. Não fazer mais nada. Apenas ouvir. Não. Já quase ninguém faz isto.
Não só se perde um momento de abstracção, por vezes Zen, e todo o estado de graça consequente, como não consigo conceber sequer, que seja possível apreciar devidamente uma composição musical em ambiente multi tasking. Fica a ideia geral da coisa, mas os pormenores enriquecedores passam ao lado. A maior parte das vezes, mesmo com toda a atenção, lá para a décima audição ainda se descobrem coisas novas.
Fica bem distinto o motivo pelo qual a música popular (e aqui o popular é no sentido de música em massa para massas de pessoas e não aquilo que habitualmente é referenciado como música Pop. Outra coisa que o passar do tempo deturpou), é simples, linear, fácil de ouvir, fácil de apreender. Consumir depressa, sem ser necessário dedicar muita atenção ao acto. Esquecer com a mesma facilidade, porque já lá vem mais uma fornada de “música” para “ouvir”.
“Audiofilia” é a doença que ataca os fósseis com a mania de “ouvir-musica-apenas”.
A qualidade de som para esta actividade de “ouvir-musica-apenas”, é um factor muito importante. Aparentemente estes fósseis são bastante exigentes com a qualidade do som ao ponto de poderem ser adjectivados de picuinhas. Os equipamentos capazes de satisfazerem os picuinhas, são difíceis de arranjar e em simultâneo, caríssimos.
Embora incluído no grupo afectado pela Audiofilia, sou um fóssil picuinhas com fronteiras muito realistas, delimitadas pela carteira. Podia ser pior. Podia ter a mania de coleccionar Aston Martin. Ou ilhas no Pacífico Sul. Se calhar foi assim que começaram alguns grandes impérios. Gajos com a mania de coleccionar coisas. Território, dinheiro, poder. Enfim, manias.
Não quero dizer com isto, que me recuse a ouvir musica na ausência dos requisitos ideais. Há mínimos, admito. Mas ouvir musica é demasiado importante para ser obliterado pela falta das condições ideais de audição. Ainda dou mais importância ao conteúdo que ao veículo.
Para os Audiófilos hardcore o “Anarchy In The U.K.” só faz sentido quando ouvido via Bang & Olufsen ou similar. Uma agulha romba, altifalantes rotos... e pronto. Já não chegam lá.
Condições ideais de audição… uma questão de perspectiva.
E conteúdo.
11/01/2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário