18/11/2008

Been there. Done that.

Espécie bizarra que somos. Partindo de uma paleta completa, só encontramos lógica e estrutura quando reduzidos ao preto e branco. Seria de esperar que a existência de múltiplas opções fosse o cenário ideal para tomar uma decisão. Não. Só quando estamos reduzidos a A e B é que atingimos a posição de conforto.

É fácil perceber que na base assim seja. Muita coisa á nossa volta vem em pares. A nossa existência física ocorre com o par macho fêmea. A própria simetria do corpo humano, direito, esquerdo. Os nossos ciclos biológicos regem-se maioritariamente pela alternância entre noite e dia. A polaridade eléctrica, positivo negativo. O campo magnético do planeta, sul norte. Muitos mais exemplos se encontram sem procurar muito.

Para seres racionais, assumidos, em cima dessa base assenta uma consciência, um intelecto. Que não serve para nada. Rendemo-nos á dualidade do certo e errado com fatídica inevitabilidade. Preguiça mental?
Quando criamos, algo de nós fica gravado indelevelmente na criação. Será que a nível civilizacional isso também é verdade? Consideremos a Inteligência Artificial como o “state of the art” dos grandes feitos da humanidade. Funciona, processa, arquiva, comunica, pensa, em binário. Dois estados. Será esta a nossa impressão digital? O nosso legado? Sim, Não. On, Off?

Bill Watterson disse pela boca da sua soberba e terrível criação: “Ás vezes penso que a prova acabada de que existe vida inteligente algures no universo é que até hoje não houve um único ser que tentasse contactar-nos”.

Provavelmente passam pelo nosso sistema solar a caminho dos seus destinos de férias, olham pela janela da nave espacial e comentam:
- Olha ali. Aquele planeta azul é onde vivem aqueles seres que só vêem a preto e branco. Não é?
- É. Coitados.
- Quanto tempo de evolução vai ser preciso até verem as cores todas?
- Este caso está referenciado como curiosidade cósmica. Eles não estão em evolução mas sim em regressão.
- Haaa! Daí o planeta estar de quarentena? Proibidos todos os contactos?
- Pois. No passado viam mais cores. Ainda não se sabe se é contagioso.
- Qual é o ciclo de vida deles?
- Superior a 70 anos com ajuda artificial, inferior a 50 sem apoio tecnológico.
- Pode ser que entretanto se extingam. Gosto de azul.
- Eu também.

O percurso da dualidade está a fazer com que não demos o devido valor àquilo que temos. E nunca se sabe de onde pode vir o proverbial: “Ou coisas, ou dás lugar a outro!”

A tal preguiça mental, o tédio, provavelmente destilado da experiência, confere uma visão de banalização a tudo. Já vi este filme… Já estou a ver onde isto vai dar… Olhamos para o genérico da distribuidora no inicio do filme e temos a arrogância de pressupor e conjecturar tudo o resto até ao “The End”. Ouvimos as primeiras notas do primeiro andamento de uma sinfonia e já está! Já não precisamos de ouvir o resto. Já estamos a ver o esquema todo. É sempre a mesma coisa. Só sete notas, é o que dá!

Não há vontade política. Ficamos pelo On Off.
Somos uns “prima donas”, entediados com tudo, com a experiência (se alguma) triturada até á arrogância.


Para:

http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

Com os melhores cumprimentos.

3 comentários:

  1. Eish... que exagero, também não é bem assim... acho eu, na sei. =|

    Gostei do diálogo entre os aliens, btw... =p


    *

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  2. Adorei e concordo contigo: quando começaremos a ter uma mentalidade mais aberta? Afinal de contas é disso que se trata: mentalidade.

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  3. Concordo contigo, no ponto em que realmente todos nós damos o que temos por garantido. Concordo também que nos tornámos mais aborrecidos, mais dependentes de ´tecnologias, e por isso menos interactivos com os outros que estão ao nosso lado, aqui mesmo, concordo que olhamos todas as cores, mas de facto não as vemos, a não ser que seja preto no branco, pra despachar.
    Mas n posso concordar com o tom derrostista, nem que seja por momentos, ainda vai havendo alguma esperança, certo? ou não?
    Beijo

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