06/11/2008

57 channels and nothing on

O Boss vai-me perdoar, mas é demasiado boa para ser contida num contexto, tão exíguo.
A ilusão de possibilidade de escolha é uma ilusão de liberdade. Subconscientemente acalma a besta. Permite ás paredes aproximarem-se. Mais.

Todos os que se interessam pela cultura se vêm hoje inundados, atascados, pela quantidade imensa de oferta. Mesmo aplicando um filtro de malha apertada, o que passa, é suficiente para nos fazer perder um tempo infinito a separar lixo. Desde clones de clones de clones de ideias de sucesso, recentes ou tão velhas que dão vontade de rir, até sub-géneros tão, tão, tão, específicos que aquilo que os distingue do sub-género mesmo ao lado é tão, tão, tão, ridículo e cretino…

Há todo um exército clónico que se cola a um estilo que está-a-dar. Então vamos lá aproveitar a boleia e facturar á conta da tendência. Encher as “airwaves” de ruído. Corromper o filtro.

A quantidade de “obras literárias” na cola do Dan Brown é a perder de vista. Até o próprio Dan Brown na cola do fenómeno irrepetível chamado “Código de Da Vinci”. No cinema foi “O Senhor dos Anéis” que esteve no início de todo um processo de clonagem. Curioso, as histórias de Tolkien que li na adolescência, na altura, punham um “post-it” a dizer “CROMO” na testa de quem fosse visto a lê-las. Olha para elas hoje, a facturar milhões.
Chamo a vossa atenção para o ecrã numero dois:

- Foste ao cinema? Ver o quê?
- Um filme tipo “Senhor dos Anéis”! “As crónicas de não-sei-o-quê”.
- Boa… Levas aí um livro? Andas a ler o quê?
- Uma cena tipo “Código Da Vinci”. O autor é um gajo Português.
- Certo… E os fones? Andas a ouvir o quê?
- Uns mens altamente! Tipo Metallica! Olha! Afinal é Metallica mesmo! Ha Ha Ha!
- Curto bué acompanhar contigo. És bué tipo intelectual e essas cenas assim.

Talvez por uma qualquer afinidade obscura, os que me irritam mesmo, são aqueles que em determinada altura aproveitaram a boleia de uma corrente musical em ascensão nos anos 80 que se chamou Heavy Metal. Passada a tal fase de ascensão, descartaram-se da etiqueta. Chegando mesmo a fazer campanha contra ela. Mudando radicalmente visuais e sonoridades, quais camaleões sem carácter. Foi angustiante ver este processo de dissociação decorrer aí pelos 90as e inicio do novo milénio. Em tempos amigo do peito, agora inconveniente embaraço.
Segundo alguém, a idade da inocência termina quando o indivíduo toma consciência da morte. Eu diria que pelo caminho existem muitas outras desilusões menores que marcam com igual importância a nossa visão das coisas e do mundo.

Hoje o Heavy Metal está a ter um feliz “come-back”. Contra as opiniões de eruditos e conhecedores elitistas, afinal não morreu, nem foi esquecido.
O Heavy Metal.
Existem estudos idóneos (Stuart Cadwallader, Universidade de Warwick, Inglaterra) que apontam o Heavy Metal como característica comum ás mentes sobredotadas e criativas. Lá para trás, num passado esquecido, ou talvez intencionalmente apagado, usar cabelo comprido, ganga e cabedal preto, pulseiras de picos e remendos bizarros, provocava outros julgamentos, tenho a certeza. Absoluta!

Analisar os porquês desta nova ascensão, as tendências de mercado, as mudanças de mentalidade, a convulsão social, a evolução tecnológica, o advento da World Wide Web. Impõe-se, mas fica para outra altura. Demorava demasiado tempo. Ou então a explicação é a mais simples: Há uma recrudescência de cromos!
Deixo apenas a opinião simplista de que o Heavy Metal se re-inventou demasiado cedo. Cedeu ás pressões da industria, antes de ter amadurecido.
Pagou por isso.
Vamos ver se aprendeu com isso.

Deleito-me a imaginar o que os gajos sem coluna vertebral, que se desmarcaram quando já não havia a propulsão pretendida, têm a dizer agora. Um “spin” bem orquestrado, é um bom espectáculo!
Pelo menos para mim. Que tenho memória e sou tipo cota e essas cenas assim.

A única coisa que efectivamente controlamos, é o comando remoto da TV. Nunca estar a dar nada de jeito é outro aspecto. Mas entretanto a besta acalmou...

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