Sermos encorajados é bom. Especialmente quando na mó de baixo, uma palmadinha nas costas e uma palavra de conforto podem significar a diferença.
Por força de um desígnio maior, ou talvez não, há todo um processo de encorajamento em massa a decorrer.
O Varredor tristonho, sujo e com salário mínimo transformou-se num Técnico Superior de Higiene e Saneamento. Com o mesmo salário mínimo, mas agora feliz e sorridente com a sua nova designação de categoria profissional e o seu novo colete fluorescente. Como complemento, a sua recente adição ao futebol, proporciona-lhe verdadeiros momentos de êxtase, contra balançados com períodos de profunda depressão. De onde é que eu conheço estes sintomas? Co… Coc… Cocaí… Não… Devo estar a fazer confusão. Mas olha, coincidência das coincidências, essa, de elites e eleitos, democratizou-se de tal maneira que passou a estar acessível ao mais comum dos mortais. Até mesmo ao Varredor. Desculpem. Técnico Superior de Higiene e Saneamento.
Esta vaga epidémica espalhou-se de tal maneira que ameaça a própria memória. De vez em quando recorro a recordações do meu tempo de escola para uma qualquer comparação com os tempos de hoje, ou apenas para contar um episódio engraçado. E já fui mais que uma vez travado no meu discurso pela simples questão que alguém, obrigatoriamente jovem, inocentemente coloca: “O que é um Contínuo?”. Pura e simplesmente corta o momento! Além da interrupção destabilizadora que compromete a recordação em pormenor do tal episodio supostamente engraçado, corrompe totalmente o ambiente de humor que deu tanto trabalho a construir. Hoje, é um Técnico Auxiliar de Acção Educativa. Porra!
Esta vaga de moralização e encorajamento está a roubar-me as “punch lines” e obriga a repensar todo o Português, palavra a palavra, antes de contar uma piada.
Correcção: Antes de contar uma piada que envolva categorias profissionais não qualificadas. Sim, porque se subirmos de nível este cuidado não é necessário. Um Engenheiro ainda é um Engenheiro, um Médico ainda é um Médico, um Advogado ainda é um Advogado.
Torna-se obvio quem foi nomeado voluntário para ser moralizado. O resto da malta não precisa. Estão bem e recomendam-se. Mas lá por não serem afectados por este braço do movimento de moralização, não pensem que estão imunes aos restantes tentáculos de alienação. São transversais, não olham a classes. Mas, mais ou menos insidiosos, mais ou menos legais, não passam todos de “panem et circenses”. É triste constatarmos que no século vinte e um, a nossa evolução como seres humanos (se é que se pode chamar assim) ainda está no patamar do antigo império Romano.
Gosto de pensar que é a nossa postura e conduta na vida a definir-nos. É redutor fazer isso a partir apenas da nossa ocupação profissional ou posição na estrutura social.
Não sou normal nem quero ser normalizado. O que é que têm para um gajo como eu?
Fiquei triste. Preciso de um abracinho.
08/09/2008
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

tomara que a nossa evolução estivesse no patamar do antigo imperio romano. eles eram extremamente organizados e inteligentes...
ResponderEliminarem relação aos titulos, é triste mas é a verdade. será que nos outros paises também se lambe as botas aos superiores e se liga a estatutos?