A adopção generalizada do “politicamente correcto” foi-se infiltrando sub-repticiamente e já cá anda á algum tempo totalmente impune. Esta liberdade de acção proporcionada pelo embrulho colorido e atractivo de educação, correcção e fineza, permitiu inicialmente a disseminação da expressão e posteriormente, já confortavelmente instalada, passou a conceito (in)devidamente interiorizado.
Agora que já mastigámos, digerimos e absorvemos a coisa, começamos a aperceber-nos do quão profundas foram as alterações provocadas por esta espécie de absorção. E começamos lentamente a reagir. Em Inglaterra brotou um movimento “anti politicamente correcto”. São muito organizados, já somam adeptos em todo o globo e até têm um website. Obviamente há gente com mais tempo livre que eu.
De expressão declaradamente ligada á meia verdade, omissão, ocultação, (in)conveniência, características inerentes ao meio político, passou a definição de educação esmerada. E á conta disso, todo um leque de temas e assuntos, que anteriormente eram digamos, “sensíveis”, passaram a “não mencionáveis”.
Qual avestruz, ignoremos deliberadamente o problema que ele acaba por desaparecer.
Como agora é entendida como uma qualidade enaltecedora do carácter, em alguns casos até mesmo como sinónimo de educação de elite, fineza e sofisticação, todo um universo de surrealismo se abriu. Chamo a vossa atenção para o ecrã número um:
A filha chega a casa dos seus paizinhos toda excitada, percorre o corredor em passadas largas, chegando finalmente á cozinha onde se encontra a sua mãezinha. De avental e chinelos a arear panelas. E grita transbordante de felicidade:
- Mamã. Achei o homem da minha vida! Vamos casar!
- Ó filha que bom! E ele? É bonitinho?
- Não mamã. A cara dele faz lembrar um Picasso.
- Então, tem um corpinho de Adónis?
- Não mãe. Se perder o equilíbrio não cai. Rebola.
- …É rico?
- A julgar pelos cigarros que me crava… acho que não.
A mãezinha já a ficar á rasca, esbugalha os olhos e diz:
- Então… é dotado que nem um jumento?
- Também não. Preliminares com ele, é basicamente meia hora a tentar achar o instrumento.
- Mas… o que é que te atraiu dessa maneira?
- Ó mãe! Ele é politicamente correcto!
- Ó filha querida. Que felicidade!
E abraçam-se as duas, emocionadas.
O politicamente correcto veio obliterar aquilo que vulgarmente chamamos de “tacto”. Os assuntos sensíveis eram abordados com tacto. Sem ofender ou melindrar, mas pelo menos, eram passíveis de ser abordados. A fealdade, a obesidade, a micropila e o tabu dos tabus: o dinheiro, ficam agora atrás da cortina de correcção política. Desde que se seja politicamente correcto, ninguém terá nada a dizer sobre nada. Essa é a prioridade. Nada.
Se um dia alguém me vir com um macaco no nariz, rogo que me alertem para a necessidade de limpar o salão. Pode não ser politicamente correcto articular a frase: “O senhor tem um burrié na venta esquerda”. Mas a acção de limpeza estimula o tacto do indicador e polegar. È melhor exercitá-lo já, antes que se perca para uma correcção politica qualquer.
10/09/2008
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário